Os estranhos caminhos de uma vida.

Tenho noventa anos e a única coisa que ainda funciona nesse velho corpo é a mente. Fazendo uso de cadeira de rodas há um certo tempo, ainda acesso o meu computador. Tenho pressa, como todos os velhos têm pressa.
A morte, ah, a única adversária à minha altura, me espreita desde que nasci, sei lá porque forças da natureza.
Meu nome é Pedro e vou te contar minha história. Para ser sincero, nem sei como estou vivo, talvez devido ao meu nome, como dizia minha mãe. Ela me contava, entre outras histórias, que Jesus disse ao apóstolo Pedro: - “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”.
Desde criança, porque pequeno sempre fui, achava esta frase bonita, sentia-me importante.
Os acontecimentos trágicos que cercaram minha vida estão enovelados na minha mente, que para meu desespero ainda é lúcida. Então fico a pensar por onde começar.
Quando queria contar uma traquinagem para mamãe e ficava gaguejando, ela inevitavelmente me dizia, comece pelo início, já com cara brava, pois sabia que coisa boa não viria da conversa.
Por isto, seguindo os conselhos maternos, os únicos confiáveis na minha triste vida, vou iniciar pelo meu nascimento.
O nascimento: nasci prematuro e naquela época, sem recursos, quase morri. Contra todos os prognósticos médicos vivi. Mais tarde pensaria se valeu a pena...
Pequeno e frágil sempre fui. Na escola era o mais baixinho, e infelizmente o mais inteligente, o que me valia os piores apelidos.
Nunca brinquei ou briguei com outros meninos. Vivia em casa trancado, lendo e sonhando com as coisas que eu iria inventar quando fosse um grande cientista.
Aos sete anos, meu pai, companheiro de pescarias e histórias na cozinha ao lado do fogão a lenha, morre assassinado na minha frente por um adversário político quando chegávamos a casa à tardinha. Lembro que o sol atarefava-se em recolher-se, deixando escapar seus últimos e débeis raios e da figura de meu pai caído por cima das roseiras da mamãe, esvaindo-se em sangue.
A vida sem o pai: após a morte de meu pai, minha mãe, mulher inteligente e nervosa, começa a ter crises de depressão alternadas com fases de alegria em que ficava muito falante. Ficou conhecida como mulher de lua, mas hoje sei que minha mãe era bipolar.
Esta convivência tornou-se difícil, pois que eu não mais encontrava segurança em casa.
A adolescência: foi na adolescência que comecei a pensar em suicídio, e tentei vários.
Quiseram os anjos, ou demônios que nenhum deles tivesse sucesso.
Sempre chegava alguém, ou a quantidade de remédios ingerida não era suficiente, ou a corda não era forte o suficiente, ou o galho da árvore quebrava...
Ou eu era um fracasso total!
No colégio, a tortura continuava, agora pior ainda, pois que além de baixinho e feio, comecei a sofrer com as espinhas. Elas tomavam conta do rosto, pústulas nojentas, que impediam até que eu me olhasse no espelho.
Quanto mais eu odiava minha figura triste, mais estudava e devorava livros. Mamãe que estava trabalhando fora aproveitava todo o tempo livre para ler, deixando a casa atulhada de roupas espalhadas, lixo por descartar e comidas apodrecendo.
Com o estomago embrulhado, eu acabava por limpar a casa. Durante as crises, quando mamãe não podia trabalhar, tive que aprender a cozinhar também.
Foi nesta época que passei a cuidar dela. Apesar da imensa tristeza que me acometia nestas fases, eu me sentia importante e poderoso. Pelo menos servia para alguma coisa.
Vovó também ajudava um pouco, deixando vovô doente em casa e limpando nossa casa uma vez na semana.
Com vovó eu tinha também apoio emocional e muito amor.
Meu avô faleceu no dia da minha formatura na faculdade de ciências econômicas, lançando um véu de tristeza e luto em um momento de comemoração.
A outra face da moeda: Foi após a formatura que minha vida tomou outro rumo.
Vovó veio morar conosco me deixando com mais tempo para os estudos. Mamãe apresentava um período de remissão da doença, conseguindo voltar às tarefas rotineiras lentamente.
Consegui facilmente uma cadeira de professor de matemática na universidade, ainda assim, estudava continuamente e com desespero. O estudo seria minha remissão, pensava na época.
A timidez aos poucos cedia lugar a uma dose mínima de segurança no trabalho e na minha capacidade intelectual. Já começara a escrever livros.
Livre das espinhas botei corpo, como dizia vovó. Atraídas pela minha aura de intelectual e homem bem sucedido, as mulheres começaram a se interessar por mim.
O contrário não aconteceu. O que estaria acontecendo comigo?
Nas longas madrugadas insones, com o corpo a arder de desejos reprimidos, costumava me masturbar muito, liberando nos lençóis os líquidos que deveriam inundar ventres femininos.
Foi nesta fase de maturidade profissional que sofri o acidente. Ridículo acidente, como tudo o que me cercava.
Estava ajudando vovó na faxina e subi na escada para limpar em cima dos armários, quando errei o degrau e despenquei lá de cima. Foi aí que a morte novamente não me levou, pois que escapei de bater com a cabeça na quina do fogão a lenha por centímetros, em compensação caí mal e quebrei o joelho direito. Como naquela época os recursos eram limitados, fui obrigado a usar muletas para o resto da vida. Inconformado, pensei que jamais casaria apesar de ser um homem jovem e desejoso de amar verdadeiramente.

Finalmente o amor: Já estava com trinta anos, quando o amor entrou em minha vida. Foi logo após a morte da vovó, acontecimento que me deixou em estado de depressão profunda.
Mas a vida, aquela que misteriosamente vinha driblando a morte, fez com que eu emergisse da depressão com mais vigor e vontade de continuar lutando.
Foi neste estado de espírito que conheci Ângela. Recém-chegada do interior começou a lecionar na faculdade onde eu dava aulas.
O primeiro encontro foi na sala dos professores durante um intervalo entre aulas. Algo inusitado fez com que ficasse paralisado olhando a mulher atraente e vivaz que conversava com outra colega. Era o amor, eu sabia. O amor longamente esperado e desejado.
Para meu júbilo, ela correspondeu à minha corte e começamos a namorar.
Contrariando os costumes, e aproveitando estar longe da família, logo começamos a transar, pois que eu já não suportava mais a solidão e a falta de um corpo feminino perfumado e quente nos meus braços.
Nosso amor logo entrou no sangue de ambos, fervilhando nossas mentes com emoções doces e selvagens. Tomávamos cuidado com a sua reputação. Ela não queria ficar mal falada na cidade.
Assim vivemos um tempo, até mamãe descobrir tudo. Já pensávamos mesmo em casamento, por este motivo, quando mamãe nos obrigou a tomar uma atitude, resolvemos marcar logo a data.
A reviravolta: Ah! Amigo, deves estar pensando: até que a vida finalmente melhorou para o infeliz. Que nada, triste sina. Quis o destino, que uma semana antes do casamento mamãe se suicidasse em uma violenta crise de depressão.
Nunca vou esquecer este dia. Eu chegara da universidade cheio de planos, e entrei logo chamando mamãe para contar dos preparativos para o casamento. Com o silêncio da casa, caminhei lentamente até o quarto de mamãe e ao abrir a porta me deparei com a cena dantesca: o quarto estava todo desarrumado. Os espelhos quebrados e manchados de sangue. Muito lívida sobre a cama, ela jazia com as roupas rasgadas e os dois pulsos cortados profundamente.
A minha mãe, a mulher que me criou e amou como ninguém jamais amaria, flutuava como um anjo caído sobre seu sangue que pingava no chão ainda...
O novo emergir da depressão: Acordei no hospital dois meses após a morte de mamãe.
Em depressão profunda, tiveram que me manter dormindo para que eu não fugisse do hospital para acabar com a minha vida.
Quando abro os olhos, Ângela, meu anjo amado, sorri levemente. Afundo a cabeça nos seios fartos e choro como um bebê.
É hora de recomeçar.
O tempo: Fomos absurdamente felizes durante todo o nosso casamento. Nossa união sólida rendeu dois filhos saudáveis e inteligentes. Queria lhes proporcionar um lar de harmonia e paz, algo que nunca tivera na vida, e que desfrutava serenamente, com a certeza do merecimento perante os deuses.
Meus filhos corresponderam aos meus anseios estudando e fortalecendo-se emocionalmente sob o comando suave de Ângela.
João, o mais velho, muito parecido comigo, custou a casar, mas Antônio assim que terminou os estudos e se colocou profissionalmente tomou seu rumo.
Era a vida seguindo o curso desenhado por um Deus esquisito que eu definitivamente nem tentava entender, e o tempo, único capaz de evaporar mágoas e desilusões, forjando criaturas perdidas no espaço sideral.
Ah, já sei o que pensas: mas afinal acabou tudo bem? Não te impacientes que falta pouco para eu terminar a minha história, triste história.
A morte: Estávamos a sós em casa naquele dia. Fazia uma semana que eu completara setenta anos, com uma saúde de ferro, como diria mamãe.
João tinha saído com a namorada, e nós conversávamos ainda à mesa de jantar.
Subitamente Ângela solta um grito e cai no chão com um estrondo pavoroso.
Corro para o telefone para chamar a ambulância, e volto para verificar o pulso de minha esposa.
Quase desfaleço, não sinto nada. Deve ser o nervoso, penso angustiado.
Pouco tempo depois, a confirmação: Ângela falecera provavelmente vitima de um acidente vascular cerebral.
Pois é meu amigo, passa-se um tempo de névoas e brumas na minha mente. Por meses perambulo pela casa entre garrafas de bebidas e tocos de cigarro, sem fazer a barba, agredindo verbalmente meu filho que sofre tanto quanto eu, mas pelo menos consegue manter-se em pé e apoiar o velho pai que parece enlouquecer de tanta dor.
Pela primeira vez não me refugio na depressão, nem tento o suicídio, ao invés, fico brigando com o sofrimento diariamente. Em momentos de grande tormento, rio para minha figura triste no espelho: vamos ver quem vai ganhar desta vez, murmuro entre dentes, desafiando a vida, a morte, o destino.
E é neste desafio que vivo desde então. Agora meu amigo, pode levar meu ultimo livro para a editora, pois que passei a vida a limpo e de hoje em diante viverei de sonhos e recordações...

Comentários

Leitura para muito tempo. Ótima postatem, Jeane.

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